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Tour comemora os 160 anos de produção cervejeira em Porto Alegre

By on maio 15, 2017
Tour cerveja Poa

Você desce do ônibus climatizado da Linha Turismo e pisa na rua do bairro Anchieta, na zona norte, em um dia de calor anormal para o meio do outono em Porto Alegre. O sol bate, o suor parece que vai despontar e aí um cara de cavanhaque colorido indica onde fica a fila para a refrescância. Ali, você recebe um copo de 300ml contendo um líquido dourado e espumante que, à beira das narinas, exala um aroma de limão. Você sorve o líquido, composto, entre outros ingredientes, de trigo, aveia, água, sementes de coentro e raspas de limão siciliano. Passou o calor. Começou a felicidade. Você está no Tour Cervejeiro, a nova forma de lembrar a todos que Porto Alegre tem uma vocação histórica para produzir uma das bebidas mais amadas do mundo.

Faz 160 anos que Porto Alegre produz cerveja. Essa paixão começou em 1857, com a fabriqueta do casal Kauffmann, que ficava na rua Clara, atual João Manuel, no Centro. Na sequência dos altos e baixos que montaram a história da bebida na cidade, iniciou-se no domingo, às 14h, o tour que leva a quatro das 26 microcervejarias porto-alegrenses. A ideia é as empresas se revezarem a cada edição mensal. Na estreia, o roteiro começou na Seasons, cujo sócio-proprietário é o dono do cavanhaque colorido, Leonardo Sewald. Em explanação aos 38 participantes do tour, revelou a regra que segue para fazer as suas cervejas, entre elas a Blanchieta, que leva o coentro e as lascas de limão: “Lei da Zoeira”.

Uma certa zoeira científica seria uma forma, mesmo, de explicar a criatividade dos mestres cervejeiros porto-alegrenses, que têm empilhado prêmios por seus produtos, especialmente em Blumenau (SC). Eles podem criticar a Lei da Pureza alemã, de 1516, que só permite água, malte e lúpulo na bebida – “queremos fazer cerveja com criatividade e não nos apegamos a dogmas cervejeiros”, bombardeia Sewald. Também podem metralhar a pilsen. Céus, a pilsen, tipo de cerveja mais utilizada pelas indústrias de grande porte do ramo, é o próprio judas. “Pilsen é de baixo custo”, ataca Sewald, outra vez.

“Pilsen todo mundo faz.” Ó, mais um murro nas pilseners. Dessa vez, quem falava era Filipo Andreola, sócio da Baldhead. Já estamos na segunda cervejaria, que ganhou o nome por causa de um dos sócios, que é careca. Andreola, de couro cabelo ainda intacto, conta que tudo começou na zona sul, mas, quando a equipe precisou se profissionalizar, mudou-se para a zona norte. Faz muito sentido. A região dos bairros Anchieta – onde fica a Baldhead – e Navegantes/Floresta concentra boa parte dos produtores de cerveja artesanal da cidade. Essa tradição da região do 4o Distrito começou ainda no século 19. A avenida Cristóvão Colombo foi o ponto em que Frederico Christoffel ergueu a sua fábrica. A avenida depois ganharia outras cervejarias importantes, culminando com a Brahma, após a Segunda Guerra Mundial – época em que as grandes indústrias tomaram conta do mercado.

A ideia do Tour Cervejeiro surgiu com o sucesso de passeio semelhante realizado durante a Semana de Porto Alegre, no final de março. Muitos dos 38 passageiros não conheciam as cervejarias. O contador Gilnei Nunes da Costa, 54 anos, aprovou e disse que vai voltar. “As cervejas artesanais estão em alta. Gosto de experimentar uma cerveja diferente.” Na verdade, o boom das cervejas artesanais já passou, conforme Ivan Francisco Diehl, proprietário da 4 Árvores, a terceira microcervejaria do tour. “Três anos atrás, houve um boom, mas agora tem uma parada por causa da crise”, reflete. Ele explica que o setor da cerveja artesanal no país se espelha muito no americano, que tem entre 30 e 40 anos e estagnou quando alcançou 16% do mercado dos EUA. No Brasil, as cervejas artesanais têm uma fatia de 1% a 2%, calcula. Portanto, há espaço para crescer.

Quando o ônibus zarpava mais uma vez, uma moça entrou reclamando: “Já estou tchuca”. Transformando o banco do ônibus em bar, Fernando Nazareth, 33 anos, dono da cervejaria Carioquesa, conversava com um amigo, ambos do Rio. A camiseta delatava a origem: “Malandro é malandro, mané é mané”, estampava. Cervejeiro há cinco anos – “fiz um cursinho em um sábado, e aí comecei” –, tinha vindo conhecer o pujante setor da capital gaúcha. Ao longo da tarde, não satisfeito com os 300ml de cada microcervejaria, Fernando ainda comprou garrafas, que secava dentro do ônibus, entre uma e outra parada.

Chegamos ao final do tour na Diefen, onde nos esperava uma stout. Três amigas discordavam se o gosto da stout lembrava café. “Coca? Não senti”, comenta a técnica em saúde bucal Ana Bastos, 50. “Um a zero Mengão!”, grita, do nada, um dos cariocas. O pessoal interagia. Alguém me falou que as cervejas harmonizaram como se fosse aperitivo, prato principal, sobremesa e cafezinho. Risos. 17h. “Mas já tem que ir embooora?” E a ingula çoumecou a erolarn, are raho de ri oraemb, ed dadever…

Uma história cervejeira centenária

Até 1857, não havia uma produção local de cerveja na capital, quando os Kauffmann começaram a mudar essa história. Mesmo depois de um incêndio, que teria destruído a fábrica, eles a reabriram, em 1879, conforme relata o historiador Sérgio da Costa Franco em sua obra “Porto Alegre Ano a Ano”. Os cervejeiros começavam com uma boa dose de resiliência.

Seis anos antes da volta dos Kauffmann, o setor da cerveja já avançara muito em Porto Alegre. Haviam surgido as fabriquetas de Polydoro & Irmão, na Várzea (na planície que englobava o atual parque da Redenção e arredores), a de Frederico Bohrer & Guilherme Barth, no Centro, e a de Frederico Christoffel, na avenida Cristóvão Colombo, inaugurando a tradição dessa via no ramo. Na segunda metade do século 19, mais de 20 microcervejarias teriam surgido na cidade.

Em 1878, começou a funcionar uma marca que fez sucesso na cidade, a Becker, de Guilherme Becker. Vinte anos mais tarde, ele vendeu a fábrica para Bernardo Sassen, mas a marca Becker sobreviveu pelo menos até a década de 1920.

No final do século 19, novas marcas de sucesso surgiam, como a de Carlos Bopp, em 1881. Dois anos depois, foi a vez da fábrica de Sebastião Campani, na Voluntários da Pátria, que produzia uma cerveja chamada, veja só, Porco.

As pequenas cervejarias passaram a sofrer com a concorrência das grandes indústrias nacionais no século 20. Para enfrentar Brahma e Antarctica, as microcervejarias porto-alegrenses se uniram sob a firma Continental, em 1924. Seu endereço era o atual Shopping Total, na Cristóvão Colombo. No entanto, a Continental foi adquirida pela Brahma em 1946. Nos últimos 20 anos, os rebeldes decidiram iniciar a retomada de parte do mercado das grandes cervejarias, dando continuidade a uma história que sempre brindou Porto Alegre como palco.

Fonte: Jornal Metro

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